quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lembrança de morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste pensamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto,o poento caminheiro
-Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh´alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade-é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade-é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti,ó minha mãe,pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!


De meu pai...de meus únicos amigos,
Poucos-bem poucos-e que não zombavam
Quando,em noite de febre endoudecido
Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei...que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!


Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu,foi por ti e de esperança
De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu,eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma  cruz,e escrevam nelas
-Foi poeta-sonhou-e amou na vida.


-Sombras do vale,noites da montanha
Que minh´alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!


Mas quando preludia ave d´aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque,abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

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